sexta-feira, 17 de julho de 2009

SONETO 42


Por que a tens, não é este todo o meu pesar,

Mesmo que eu possa dizer quanto a amei;

Por ela ter a ti, este é todo o meu lamento,

Um amor ainda mais perdido para mim.

Amantes impuros, eu vos perdoo: –

Tu a amas, mesmo sabendo que eu a amo;

E mesmo que ela continue a abusar de mim,

Fazendo meu amigo sofrer por ela e por mim.

Se eu te perder, para o meu amor será um ganho,

E, ao perdê-la, meu amigo já não poderá tê-la;

Ao se unirem, perco os dois,

E ambos me farão arrastar esta cruz:

Mas, eis a alegria: meu amigo e eu somos um;

Doce engano! Então ela ama só a mim.

SONETO 43


Quanto mais pisco, melhor meus olhos veem,

Pois o dia todo vislumbram coisas que nada são;

Mas, quando adormeço, surges em meus sonhos,

E, luzindo no escuro, fulgem em meio ao breu;

E tu, cujo vulto reluz entre as sombras,

Cuja forma mostra-se alegre,

Na claridade, tua luz é ainda maior,

Que, ante meus olhos baços, faz tua sombra brilhar!

Como (eu diria) seriam meus olhos abençoados

Ao ver-te à luz do dia,

Quando, na calada da noite, tua sombra bela e imperfeita

Permanece sob minhas pálpebras durante o sono!

Todos os dias são noites, até que eu te veja,

E as noites, dias claros, ao mostrar-te em meus sonhos.

SONETO 47


Há uma união entre o que vejo e sinto,

E o bem que cada coisa verte de uma em outra:

Quando meus olhos anseiam por um olhar,

Ou o coração apaixonado, brando, a suspirar,

Meus olhos celebram a imagem do meu amor,

E, diante do banquete, se rende a minha emoção;

Em outro tempo, meus olhos se aninham ao sentimento,

E se unem aos seus pensamentos amorosos:

Então, seja por tua imagem ou pelo meu amor,

Estás, mesmo distante, sempre comigo;

Pois não corres mais do que meus pensamentos,

E estou sempre com eles, e eles, contigo;

Ou, se adormecem, a tua imagem à minha frente

Desperta meu amor para a alegria dos olhos e do coração.

SONETO 53


De que substância és feita,

Que milhões de estranhas sombras te envolvem?

Como todos têm, cada um, a sua sombra,

E tu, sozinha, podes emprestar a elas.

Descreve Adônis, cuja imitação

É parcamente feita à tua imagem;

E sobre o rosto de Helena toda arte da beleza se define,

E tu, em mosaicos gregos, de novo és pintada;

Fala da primavera, e do frescor do ano;

Aquela que exibe a sombra de tua formosura,

E o outro, como teu coração se assemelha,

E tu, em toda forma abençoada e conhecida.

Tomas parte de toda graça visível,

Mas, nem tu, nem ninguém mantém fiel o coração.

SONETO 56


Doce amor, sê forte; não digas que

Teu ardil seja mais bruto que teu apetite,

Que somente hoje alias e alimentas,

Depois aguçado em seu antigo poder:

Então, amor, sê tu mesma; embora hoje preenchas

A fome de teus olhos, mesmo plenos,

Amanhã novamente vejam, e não matem

O espírito do amor com perpétuo tédio.

Deixa este triste ínterim ser como o oceano

Que divide a praia, onde dois novos seres

Diariamente vêm até as margens, e, ao assistirem

Retornar o amor, mais abençoada se torna esta visão;

Ou mesmo o inverno, que, cheio de cuidado,

Faz o estio ser três vezes mais raro e ansiado.

SONETO 57


Sendo teu escravo, o que fazer senão atender

Às horas e aos chamados de teu desejo?

Não tenho tempo algum para mim,

Nem serviços a fazer, até que me peças.

Nem ouso repreender a hora do mundo sem .m,

Enquanto eu, minha soberana, sigo tuas horas,

Nem penso que a solidão da ausência seja amarga,

Após dispensar teu servo de teu serviço;

Nem ouso questionar com meus ciúmes

Onde andarás, ou imaginar o que fazes,

Mas, como um triste escravo, sento-me e não penso,

Salvo, onde estás e quão feliz fazes a todos:

Então, que tolo é o amor, que, sob teu jugo

(Embora nada faças), nenhum mal o assombre.

SONETO 60


Como as ondas se arremessam contra as pedras,

Aproximam-se os minutos de seu .m;

Cada um ocupando o mesmo espaço,

Num incansável e destemido movimento.

Do nascimento, após vir à luz,

Engatinhamos até a maturidade, e somos coroados,

Vencendo estranhos eclipses perante sua glória,

E o Tempo, dado, que hoje nos lega seu presente.

Os dias firmam seu passo na juventude,

E cavam suas sendas sobre a fronte da beleza;

Alimentam-se da raridade da verdade da natureza,

Mas nada impede o firme corte de sua foice.

Porém, às vezes, espero que meu verso prevaleça,

Elevando teu valor, apesar de seu cruel desmando.

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