sexta-feira, 17 de julho de 2009

SONETO 22


Meu espelho não me dirá que envelheço,

Enquanto tenhas a mesma idade e juventude;

Mas quando em ti vejo a essência do tempo,

Sinto que a morte expiará meus dias.

Pois, toda a beleza que viceja em ti

É apenas um prolongamento do meu coração

Que vive em teu peito, como o teu em mim:

Como, então, eu seria mais velho do que és?

Ah, então, meu amor, sê cuidadosa

Como eu, não por mim, mas por tua vontade;

Carregando teu coração, que guardarei comigo,

Como a ama que protege seu bebê querido.

Não penses em teu coração quando o meu fenecer;

Tu me deste o teu para nunca mais o devolver.

SONETO 27


Cansado do trabalho, corro ao leito

Para repousar meus membros exaustos de viagem;

No entanto, inicia-se uma jornada em minha mente,

Depois que a atividade de meu corpo cessa:

Assim, meus pensamentos (vindos de muito longe)

Começam uma lenta peregrinação até onde estás,

E fazem que meus olhos sonolentos não se fechem,

Encarando o negror que os cegos veem:

Exceto que a visão imaginária de minh’alma

Traz tua sombra invisível,

Que, como uma joia suspensa no escuro,

Adorna a noite turva, a renovar seus traços.

Vê! Assim, de dia, as pernas e, à noite, a mente,

Nem por mim, nem por ti, encontram paz.

SONETO 29


Quando em desgraça, sem sorte e afastado

Dos homens, sozinho, em meu exílio,

Perturbo os Céus surdos, a gritar sem sossego,

E olho para mim, e amaldiçoo meu destino,

Sonhando ser mais afortunado,

Como homem de muitos amigos,

Cobiçando seus talentos e visão,

E aquilo que mais aprecio sinto menos satisfeito;

Mesmo, nesses pensamentos, quase me desprezando,

Feliz, penso em ti – depois em meus bens

(Como a cotovia elevando-se ao romper do dia

Das entranhas da terra), em hinos a louvar o céu;

Pois, lembrar de teu doce amor traz tanta riqueza,

Que desdenho trocar meu dote com reis.

SONETO 30


Quando, em silêncio, penso, docemente,

Sobre fatos idos e vividos,

Sinto falta do muito que busquei,

E desperdiço um tempo precioso com antigos lamentos:

Então meus olhos naufragam sem mais saber chorar,

Por queridos amigos envoltos pela noite do esquecimento,

E novamente choro o amor há tanto abandonado,

Gemendo por algo que não mais vejo:

Assim, posso sofrer as velhas dores,

E lamentar, de pesar em pesar,

Uma triste história de antigas mágoas,

Que pranteio como se não as tivesse pranteado antes.

Mas quando penso em ti, querida amiga,

Todas as perdas cessam, e a tristeza finda.

SONETO 31


Teu peito contém todos os corações,

Que eu, por não os ter, supus mortos;

E onde reina o amor, e tudo o que o amor mais ama,

E todos os amigos que pensei jazidos.

Quantas lágrimas santas e obsequiosas

Roubaram o amor sagrado de meus olhos,

Como maldição dos mortos, que agora ressurge

Entre coisas invisíveis que em ti se ocultam!

Tu és a tumba onde o amor enterrado vive,

Preso aos trunfos dos amores que partiram,

Que entregaram a ti tudo que pertence a mim;

E, por isso, tudo agora é apenas teu:

Tudo que neles amei, eu vejo em ti,

E tu (todos eles) me tens em tudo que sou.

SONETO 38


Como pode minha Musa inventar seus motivos,

Enquanto vives a derramar em meu verso

Teu doce argumento, sublime demais

Para se traçar sobre um papel comum?

Ah, agradeça a ti mesma, se em mim

Persiste o alento que se sustenta à tua frente;

Somente o estúpido não poderia te escrever,

Quando tu mesma dás luz à invenção?

Sê a décima musa, dez vezes mais valiosa

Do que as outras nove antigas que os poetas invocam;

E aquele que te chamar, faze com que traga

Eternos versos que vivam por um longo tempo.

Se à minha leve Musa agradar esses curiosos dias,

Minha será a dor, mas tua será a rima.

SONETO 40


Toma todos os meus amores, meu bem, sim, toma-os todos;

O que mais tens agora que antes já não tinhas?

Nenhum amor, meu bem, que possas chamar de amor;

A mim tinhas por inteiro, antes de me teres mais ainda.

Então, se pelo meu amor tu o recebeste,

Não posso culpar-te pelo meu amor que usaste;

Mas, mesmo culpada, se porventura te enganaste,

Por orgulho do que tu mesma recusaste.

Perdoo-te por teres me roubado, gentil ladina,

Embora roubes de mim toda a minha riqueza;

Ainda assim, o amor sabe, é uma tristeza inda maior

Suportar do amor o erro do que a injúria do desamor.

Lascívia graça, em quem todo o mal se mostra,

Mata-me com teu desprezo, mas não nos tornemos inimigos.

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